"A poesia masculina nunca atingiu, na Grécia, a profundidade espiritual da lírica de Safo" — Jaeger,
Paidéia
"De tanto erro antigo desatai o nó:
que seja para os amigos, alegria
para os inimigos; inquietação."
Então surgiu essa poetisa grega,
Safo - considerada por Platão como: a décima musa. (deusa imortal)
Vivia em Lesbos, uma ilha localizada na costa da Ásia Menor, onde as mulheres eram tão livres quanto atualmente (ao contrário das de Atenas e outras pólis gregas)
Nasceu em Eresos (uma das 5 cidades da ilha), perto do mar Egeu, famosa por sua cevada e pelo branquissimo pão, porém logo foi obrigada a abandonar sua terra natal (em que vivia entre macieiras, plátanos, carvalhos, amendoeiras, figueiras e romãs).
Mudaram-se para Mytilene, uma das mais belas cidades da ilha e de toda a Grécia - devido a maravilhosa vista; as montanhas e o mar de lá.
Embora a vida tenha se tornado extremamente perigosa devido aos ataques de atenienses, Safo sempre pôde se dedicar inteiramente à arte do bem-viver; à dança; à música e à poesia. "A arte das Musas".
Seu temperamento passional, fascínio pelas coisas exóticas, também expresso em seus versos, decerto compunha-se com sua aparência física.
"Tudo acontece como se o espírito grego precisasse de Safo para dar o último passo no mundo da intimidade do sentimento subjetivo. Os gregos deviam ter sentido isto como algo muito grande quando, no dizer de Platão, honraram Safo como a décima musa." — Jaeger.
"Há quem afirme serem nove as musas. Que erro!
Pois não vêem que Safo de Lesbos é a décima?
— Platão
Afrodite e Eros (inseparáveis) são constantes referencias de Safo diante da pathos e da perplexidade.
Não narra histórias - cronologia de seus amores. Traça instantâneos de sua opulenta vida emocional, fixando, como numa fotografia, a ação de Eros (desejo).
"“Quem é belo
é belo aos olhos
- e basta.
Mas quem é bom
é subitamente belo”
"Igual dos deuses esse homem
me parece: diante de ti
sentado, e tão próximo, ouve
a doçura da tua voz,
e o teu riso claro e solto. Pobre
de mim: o coração me bate
de assustado. Num ápice te vejo
e a voz me vai;
a língua paralisa; um arrepio
de fogo, fugaz e fino,
corre-me a carne; enevoados
os olhos; tontos os ouvidos.
O suor me toma, um tremor
me prende. Mais verde sou
do que uma erva – e de mim
não me parece a morte longe…"
aliás, mais adiante, veio Catulo e - sendo grande admirador da poetisa - recriou esta ode:
"Igual a um deus me parece,
superior aos deuses, se é lícito dizê-lo,
aquele que, sentado defronte de ti
contempla-te e ouve-te
teu doce riso, que a este desgraçado
tira todo o senso: pois logo que,
ó Lésbia, te vejo, nem um fio de voz
resta em minha boca
mas entorpece-se a língua, nos membros
corre uma ténue chama, os ouvidos
retinem de zumbidos, aos olhos ambos
cobre-os a noite.
o ócio, Catulo, faz-te mal:
com o ócio te exaltas e te excitas demasiadamente;
o ócio,outrora, a reis e cidades prósperas
Cidades levou à ruína."
"Mas tu, Catulo, obstinado resiste.."continuando..
"...
as essências de ervas raras
e um perfume real
derramado sobre a pele;
o leito onde o desejo
profundamente apaziguaras
ao meu lado..."
LXVI
"A quem me fere assim,
o vento e as penas o levem"
"Amo o esplendor. Para mim o desejo
é um sol magnificente e a beleza
coube-me em herança."
Fontes consultadas: Poemas e fragmentos de Safo. ANDRADE, Eugénio de.
Safo de Lesbos. Trad. Pedro Alvim. São Paulo: Ars Poetica, 1992.
"Nos primeiros tempos somente a mulher era capaz daquela entrega total da alma e dos sentidos, único sentimento que, para nós, merece a designação de amor" Jaeger
amargo-doce; experiência íntima e devastadora da paixão.
"A lua já se pôs,
as Plêiades também:
meia-noite; foge o tempo,
e estou deitada sozinha."
"... divina lira fala,
torna-te voz"